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Para poder ser amigos

Muito humanos, muito divinos

Retirado do site do “Opus Dei”

 

Continuidade e sintonia

Outra componente indispensável da amizade é a continuidade da relação, porque duas interioridades não se abrem de repente. As coisas importantes precisam de tempo para se enraizarem e crescerem num coração humano. Por vezes, parece-nos que encontrámos um novo melhor amigo, mas na realidade ele ainda tem de crescer na relação. "É preciso muito tempo para falar, para estarmos juntos, para nos conhecermos.... Aí a amizade forma-se. Só com esta paciência é que a amizade pode ser real" [7].

Os amigos querem ver-se, estar juntos, poder partilhar o que é valioso para cada um deles. Os apóstolos gostavam de estar com Jesus não só porque o consideravam o Messias de Israel, mas porque eram bons amigos. Não o seguiam apenas por convicções históricas ou intelectuais, mas porque Jesus se tinha tornado parte das suas vidas: "Voltarei a ver-vos e o vosso coração alegrar-se-á, e ninguém poderá tirar-vos a alegria" (João 16,22).

Os encontros e a comunicação ao longo do tempo reforçam a amizade ao ponto de a tornar sólida, mesmo em caso de distância. Gera-se então uma harmonia especial entre amigos, porque cada um comunica espontaneamente ao outro os bens que preenchem a sua vida. É assim que se chega a apreciar o que o outro aprecia, a gostar das suas coisas; e também, naturalmente, a entristecer-se com o que lhe causa tristeza. O amigo atrai sinceramente o outro, não o convence nem o engana mascarando outros interesses como amizade.

 

As virtudes para a convivência

São Tomás de Aquino diz que "entre as coisas do mundo não há nenhuma que possa ser dignamente preferida à amizade, pois é ela que une os virtuosos, mantém e eleva a virtude" [8]. O caminho da virtude é um aliado da amizade: aqueles que cultivam a imagem de Deus na sua vida reconhecem-se facilmente e tendem a partilhar essa beleza interior.

Não há dúvida de que algumas destas virtudes são mais adequadas para preparar este caminho ou para o fazer crescer: são as virtudes da convivência. "Este clima de amizade, que cada um é chamado a trazer consigo, é o fruto da soma de muitos esforços para tornar a vida agradável aos outros. É importante crescer na afabilidade, na alegria, na paciência, no otimismo, na doçura e em todas as virtudes que tornam a convivência amável, para que as pessoas se sintam bem acolhidas e sejam felizes: a boca amiga multiplica os amigos, a linguagem mansa atrai as saudações (Sir 6,5). A luta para melhorar o próprio carácter é uma condição necessária para que a amizade nasça mais facilmente" [9].

Nem sempre é fácil distinguir quais os aspetos da personalidade de cada um que devem ser modelados na amizade e quais os que devem ser tolerados - e até amados - pelo amigo. Talvez não seja necessário fazer demasiadas distinções, mas é preferível trabalhar sobre si próprio, o que está ao nosso alcance: se sou tímido, tentarei ser mais extrovertido; se tenho reações violentas, tentarei suavizá-las; se tenho tendência para ser indiferente, tentarei tornar claro o que sinto, etc. O que não iria muito longe, em qualquer caso, seria ficar numa afirmação obstinada de si mesmo. São Josemaria convidava todos a não caírem nesta armadilha: "Às vezes, pretendes justificar-te, dizendo que és distraído; ou que, por carácter, és árido, reservado. E acrescentas que, por isso, nem sequer conheces bem as pessoas com quem vives. - Escuta: esta desculpa não te deixa tranquilo, pois não? [10].

 

* * *

Toda a amizade é um presente que se recebe, e quando é aceite torna-se um presente para o outro. É uma caraterística do amor: só pode ser dado por quem o recebeu primeiro. Também o amor que Cristo oferece aos seus apóstolos é precedido pelo amor que lhe foi dado: "Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós" (Jo 15,9). Por isso, para além de crescer em todas as virtudes que nos ajudam a abrir-nos aos outros, o mais importante para sermos verdadeiros amigos é aprofundar o amor de Deus por nós. À medida que esta relação de intimidade cresce, a capacidade de amar os outros alarga-se. "O amor a Deus e o amor ao próximo são inseparáveis, são um só mandamento. Ambos, porém, vivem do amor preveniente de Deus que nos amou primeiro [...]. O amor é "divino" porque vem de Deus e nos une a Deus e, através deste processo unificador, transforma-nos num Nós que supera as nossas divisões e nos torna um só, até que, no fim, Deus é "tudo em todos" (cf. 1 Cor 15, 28)" [11].

 

 

[7] Papa Francisco, Entrevista, 13-IX-2015. O texto completo pode ser encontrado no site web da Agência Informativa Católica Argentina.

 [8] São Tomás de Aquino, Del governo dei principi, I, X.

 [9] D. Fernando Ocáriz, Carta Pastoral, 1-XI-2019, n. 9.

 [10] São Josemaria, Solco, n. 755.

 [11] Bento XVI, Enc. Deus Caritas est, n. 18.

 

 

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