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São Carlos Acutis e Fátima

À semelhança dos pastorinhos

 

de Pe. César Cuomo icms

 

Quem conhece a vida do recém-canonizado Carlo Acutis sabe que ele nutria uma grande devoção à Nossa Senhora de Fátima, a quem foi pessoalmente visitar perto do fim da sua breve vida.

Aliás, não é de admirar, pois a sua mensagem materna confirmava o tesouro imensurável da sua fé que, desde os quatro anos de idade, descobrira graças à empregada doméstica polaca, que foi para ele como uma primeira catequista, já que, naquela época, os seus pais não eram praticantes.

Este facto faz compreender quão importante é semear a semente da fé desde a infância. O homem precisa sempre de alguém que seja pai ou mãe também espiritualmente, e os primeiros a exercer essa função devem ser os pais, como foi o caso dos pastorinhos; se estes não forem crentes ou não forem praticantes, é de se esperar que essa missão seja assumida pelos padrinhos de batismo, se a criança for batizada, como também pelos avós ou outra pessoa de boa índole.

 Poderíamos perguntar-nos, de facto: qual teria sido o percurso espiritual de Carlo, se não tivesse conhecido aquela ama? Talvez a Divina Providência tivesse colocado no seu caminho outra pessoa de fé, ou talvez teria sido vítima daquele indiferentismo que tende a sufocar o olhar do homem para Deus desde a mais tenra infância, como acontece hoje com a grande maioria dos homens, com consequências desastrosas e incalculáveis a todos os níveis?

Raramente os pais do nosso tempo se dão conta do mal que causam aos filhos, ao não se preocuparem com a sua vida de fé que, muitas vezes, eles próprios nunca tiveram ou já perderam.

Mas o que se pode esperar de um jovem a quem nunca ninguém falou de Deus, ou que ignora quem Ele é, o seu infinito amor misericordioso, o projeto ou a missão que tem para ele, desprovido de uma perspetiva e de uma esperança sobrenaturais e eternas? Não correrá o risco de cometer, mais cedo ou mais tarde, erros que condicionam negativamente o seu caminho neste mundo, com o perigo de se perder eternamente?

Um pai ou mãe conscienciosa, mesmo que não seja crente, que realmente ama os seus filhos, deveria, de qualquer forma, colocar-se estas questões.

 A mãe de Carlo, que se converteu graças ao facto de ter de responder às frequentes perguntas do seu filho sobre a fé, sentiu a necessidade de conhecer melhor as verdades da fé cristã e acabou por se convencer plenamente delas, pelo que terá testemunhado mais tarde numa entrevista: «Carlo era muito ligado às aparições da Virgem Maria em Fátima, dizia que aqui a Virgem Maria, nas suas mensagens, nos oferece uma catequese completa, a 360 graus. Olhando para Fátima, de facto, encontramos toda a nossa fé resumida».

A semente da fé, lançada no coração de Carlo, cresceu rapidamente, assim como tinha crescido e se desenvolvido nos corações de Jacinta e Francisco, os pastorinhos de Fátima que, guiados com a sabedoria materna de Nossa Senhora, alcançaram em pouco tempo os mais altos picos da santidade, estando imediatamente prontos para a glória do Paraíso.

Isto ensina-nos que, onde há boa disposição do coração, a graça de Deus opera com grande rapidez e eficácia. Não podemos, portanto, queixar-nos de Deus quando percebemos que a nossa vida de fé não avança com o mesmo ímpeto, mas devemos admitir humildemente que o problema está do nosso lado, na nossa fraca correspondência à graça, que retarda o nosso progresso espiritual.

 Tal como os pastorinhos, Carlo não conseguia compreender como é que, apesar dos extraordinários prodígios realizados pela Virgem Maria, a maioria das pessoas continuava indiferente aos seus apelos maternos: «Os milagres realizados pela Virgem Maria durante as suas aparições na terra podem ser de grande ajuda para fazer crescer a fé de muitas pessoas... Como se pode ignorar — perguntava-se frequentemente — os apelos que a Virgem Maria nos deixou? ».

Ele também, como eles, se surpreendia e se entristecia com a rejeição e a indiferença do mundo. Para eles, tudo o que dizia respeito a Deus parecia claro, belo e amável, e por isso era incompreensível e repreensível o ceticismo de tantos, mesmo diante dos extraordinários milagres realizados pela Virgem.

 Na mensagem de Fátima, Carlo encontrou a confirmação dos laços que unem os dois grandes pilares que sempre sustentaram o seu breve, mas intenso e fecundo caminho de fé: o amor à Nossa Senhora e a Jesus, presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

No que diz respeito à Eucaristia, verifica-se uma curiosa semelhança entre as circunstâncias que precederam a primeira comunhão de Carlo e a de Irmã Lúcia.

De facto, também Carlo insistiu em fazê-la antes do tempo. Se para Lúcia foi providencial o padre Cruz que, constatando o grande desejo de Lúcia e verificando a sua excelente preparação, assumiu a responsabilidade de lhe dar a primeira comunhão no dia seguinte, para Carlo foi o bispo da sua diocese, Monsenhor Pasquale Macchi, que reconheceu a sua reta intenção e preparação, permitindo que, com apenas sete anos, recebesse Jesus Eucarístico.

Vistos os efeitos, Monsenhor Macchi, tal como o padre Cruz para Lúcia, «viu longe». De facto, Carlo, a partir desse dia, experimentou todo o poder espiritual do Sacramento da Eucaristia, ao ponto de o definir como «a minha autoestrada para o céu».

A leitura das memórias da Irmã Lúcia incentivou-o ainda mais a rezar o Santo Rosário e a desejar consagrar-se à Virgem Maria, a quem, a certa altura definiu como: «a única mulher da sua vida».

À semelhança do que aconteceu com os pastorinhos de Fátima, a devoção eucarística e à Nossa Senhora gerou em Carlo o mesmo desejo de reparar, de sofrer para consolar Deus e obter a conversão dos pobres pecadores.

Enfrentou, portanto, a doença com o mesmo espírito de coragem e de reparação: «Ofereço todos os sofrimentos que tiver de suportar ao Senhor, pelo Papa e pela Igreja, para não passar pelo Purgatório e ir direto para o Paraíso». Aceitou a morte prematura, não só com espírito de resignação cristã, mas mesmo com alegria, especificando o motivo: «Estou feliz por morrer, porque vivi a minha vida sem perder um minuto em coisas que não agradam a Deus».

 Um itinerário de fé, portanto, muito semelhante ao dos pastorinhos, mas que no final destaca claramente os princípios do desenvolvimento da vida cristã válidos para todos os batizados, ou seja: cultivar com seriedade a devoção eucarística e à Virgem Maria que, alimentando-se mutuamente, fazem crescer o afeto e o amor por ambos e, consequentemente, o desejo de reparar os pecados daqueles que os ofendem, sem medo de sofrer por isso, mas até com alegria, que se torna tão profunda que, no final, até a própria morte é acolhida com felicidade, por ser vivida na certeza de se estar para sempre nos braços de Jesus e da Virgem Maria, que se amaram tão ardentemente durante a vida terrena.

 

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